No meio do ano passado, eu fui preso pela primeira vez pela polícia. Foi bem tenso a situação. Os detalhes estão descritos no vídeo. Mas queria falar sobre depois. Jamais imaginei que seria tão difícil.
É difícil falar. É realmente difícil. No momento em que você está nas mãos da polícia tudo pode acontecer. Você sabe que tudo pode acontecer. No começou eu pensei em ficar em silêncio e demonstrar tranquilidade. Mas não adiantou. Começou a tortura psicológica junto com a torção nos meus braços algemados. A partir dali eu pensei "que droga vou apanhar". Daí comecei a me preparar para o pior. Daí tentei começar a tentar não pensar em nada...fugir dali...para não sentir as dores que viriam...Mas não adiantava. Eles queriam que eu de alguma maneira respondesse às agressões, nem que fosse chorando. Foi aí que eu comecei a ter medo. O medo é a pior sensação porque você começa a imagina o pior. "E se eu levar um tiro? E se eu for estuprado?" Tudo passava na minha cadeça....Ficar pelado foi inacreditável. Ali eu não tive dúvidas de qualquer coisa poderia acontecer. Ainda mais quando eu me dei conta de que ninguém sabia onde eu estava de fato. Me senti ninguém. Totalmente inexistente. Não parecia real. Mas era.
Acho que essa sensação de se sentir um lixo. Incapaz. Impotente. Junto com as dores no corpo trouxe consequeências enormes na minha cabeça que eu não sei dimensionar. Difícil também vou enfrentar a realidade depois. A dimensão do caso foi importante para denunciar um problema social. Mas por outro lado foi muito difícil encarar os olhares das pessoas ao meu redor de desconfiança, reprovação, curiosidade, etc. Foi muito difícil voltar à mesma rotina de antes. A partir dali minha rotina mudou. Não queria ir para a faculdade. Não queria entrar na sala de aula. Não queria encarar tudo aquilo.
Ao mesmo tempo, tive que ser forte. Tive que enfrentar minha família e ao mesmo tempo tranquilizá-los. Fingir que eu estava tranquilo quando na verdade não estava.
Nessa época eu também estava numa crise no meu antigo relacionamento.
Enfim, fiquei totalmente perdido.
Parece que até hoje, desde ali, muito coisa ainda não voltou ao normal. Talvez nunca volte. Não sou o mesmo.
Aprendi que eu tenho que ter paciência comigo. É o que eu tenho tentado todos os dias.