Tuesday, November 24, 2015

o dia em que eu fui preso


No meio do ano passado, eu fui preso pela primeira vez pela polícia. Foi bem tenso a situação. Os detalhes estão descritos no vídeo. Mas queria falar sobre depois. Jamais imaginei que seria tão difícil.

É difícil falar. É realmente difícil. No momento em que você está nas mãos da polícia tudo pode acontecer. Você sabe que tudo pode acontecer. No começou eu pensei em ficar em silêncio e demonstrar tranquilidade. Mas não adiantou. Começou a tortura psicológica junto com a torção nos meus braços algemados. A partir dali eu pensei "que droga vou apanhar". Daí comecei a me preparar para o pior. Daí tentei começar a tentar não pensar em nada...fugir dali...para não sentir as dores que viriam...Mas não adiantava. Eles queriam que eu de alguma maneira respondesse às agressões, nem que fosse chorando. Foi aí que eu comecei a ter medo. O medo é a pior sensação porque você começa a imagina o pior. "E se eu levar um tiro? E se eu for estuprado?" Tudo passava na minha cadeça....Ficar pelado foi inacreditável. Ali eu não tive dúvidas de qualquer coisa poderia acontecer. Ainda mais quando eu me dei conta de que ninguém sabia onde eu estava de fato. Me senti ninguém. Totalmente inexistente. Não parecia real. Mas era.

Acho que essa sensação de se sentir um lixo. Incapaz. Impotente. Junto com as dores no corpo trouxe consequeências enormes na minha cabeça que eu não sei dimensionar. Difícil também vou enfrentar a realidade depois. A dimensão do caso foi importante para denunciar um problema social. Mas por outro lado foi muito difícil encarar os olhares das pessoas ao meu redor de desconfiança, reprovação, curiosidade, etc. Foi muito difícil voltar à mesma rotina de antes. A partir dali minha rotina mudou. Não queria ir para a faculdade. Não queria entrar na sala de aula. Não queria encarar tudo aquilo.

Ao mesmo tempo, tive que ser forte. Tive que enfrentar minha família e ao mesmo tempo tranquilizá-los. Fingir que eu estava tranquilo quando na verdade não estava.

Nessa época eu também estava numa crise no meu antigo relacionamento.

Enfim, fiquei totalmente perdido.

Parece que até hoje, desde ali, muito coisa ainda não voltou ao normal. Talvez nunca volte. Não sou o mesmo.

Aprendi que eu tenho que ter paciência comigo.  É o que eu tenho tentado todos os dias.

Friday, November 20, 2015

normas da prisão

quando eu completei 18 anos tive meu primeiro namorado pra valer. foi o meu maior relacionamento até hoje. o armário era cruel. tanto para mim quanto para ele. 

foi tudo muito difícil. tudo era muito novo ainda para mim. eu nunca tinha me envolvido com alguém daquela maneira. e junto com todas as minhas aflições eu ainda tinha que guardar durante muito tempo aquilo só para mim. 

é engraçado que a gente tenta se iludir e fantasiar situações na cabeça para tornar as coisas menos difíceis. ver graça na mentira. nada mais falso. tentar não ver a dor que está escancarada na sua frente.

falar desse relacionamento é bastante pesado. foi muita coisa vivida e mal resolvida. o fim da relação foi péssimo. 

mas o que eu queria falar na verdade é que quando "redescobriram" em casa sobre minha orientação eu pensei em ir morar fora. na verdade, o dia em si foi muito ruim. foi horrível. 

minha irmã mais velha já sabia. eu pedi a ela em uma conversa reservada que não contasse aos demais em casa. mas não adiantou. um dia tudo explodiu. eu lembro até hoje de ouvindo a situação do meu quarto e torcendo para aquilo não ser realidade. mas era. logo em seguida, choros, discussões, olhares recriminadores. o doente social tinha voltado. 

não tenho certeza. mas acho que nesse dia eu dormi trancado no banheiro já que os quartos não tinham mais chaves desde os meus 13 anos por conta da primeira descoberta...sim...todas as vezes que eu lembrava que ninguém mais em casa podia trancar a porta do caso também lembrava que era por minha causa...

enfim. naqueles dias eu pensei em sair de casa. e tive uma conversa completamente bizarra com meu pai. ele me disse que se eu quisesse ficar em casa teria que me submeter a três regras: não levar nenhum homossexual em casa, não falar com nenhum homossexual no celular e não usar redes sociais. 

e eu aceitei. e até hoje não sei porquê. é algo que eu ainda preciso refletir. 

a primeira regra foi cumprida. nunca mais ninguém que eu conhecesse foi em casa. a partir dos 18 anos minha família nunca conheceu mais meus amigos. minha família não faz ideia de quem sejam meus amigos e como eles são pessoas importantes para mim.

a segunda regra foi burlada. logo em seguida eu ganhei um celular com chip pré-pago...meu pai ficou bravo por isso...

e a terceira foi aos poucos sendo descumprida...mas eu só tive privacidade novamente na internet quando comprei meu próprio computador.

dos 18 aos 23 anos eu vivi sob essas normas. foi muito difícil. me causou vários traumas que eu tenho até hoje. jamais me sentirei confortável na casa dos meu pais. não sinto que lá é minha casa de jeito nenhum. para mim é uma prisão. um lugar onde sou vigiado o tempo todo. onde me sinto muito mal. por isso não quero voltar para lá de jeito nenhum. 

é triste ter esse sentimento sobre a casa dos meus próprios pais. me sinto bastante desconfortável. mas não posso ficar fingindo algo que não existe. a realidade é essa. e eu preciso ficar bem para poder enfrentar a vida.

Saturday, November 14, 2015

tenho certeza

"eu tenho quase 40 anos e eu posso te dizer com certeza que você não é gay, que é somente uma fase ou confusão sua". eu ouvi essa frase do meu pai quando eu tinha 13 anos. nesse dia eu achei que eu fosse apanhar dele. sempre foi muito difícil ter algum diálogo com ele. não que ele tenha sido um pai violento, pelo contrário, ele sempre foi na dele e me tratou bem na medida do possível. mas ele sempre foi muito conservador e machista. toda vez que aparecia qualquer cena que fosse remetida a homossexualidade ele fazia questão de fazer alguma piada. eu até hoje não entendo o porquê. minha família é composta por três mulheres (mãe e duas irmãs) e eu e meu pai. nunca houve um outro "macho" ao lado dele em casa, mas ele sempre viu necessidade nisso.

eu ouvi essa frase na semana que eles "descobriram" que eu era gay. na verdade, eles já estavam desconfiando de algo. afinal, é no mínimo preocupante seu filho de 13 anos começar ir para a balada de madrugada e você não fazer a menor ideia com quem, não?

e nessa semana, meu pais chegou um dia em casa e me chamou para conversarmos. só eu e ele. mas ele foi sereno. a primeira coisa que ele disse foi: "eu nunca fui numa balada gay". havia ternura naquela conversa. o que eu lembro ter respondido a ele foi: "eu acho tenho certeza que eu sou gay".

depois daquela conversa, senti que as coisas poderiam ser melhores. que eu poderia parar de mentir. eu nunca gostei de mentir. mas durou pouco tempo. logo em seguida veio as imposições. as terapias e o diagnóstico social da minha "doença".


Monday, November 9, 2015

balada

lembro até hoje o primeiro dia em que eu fui numa balada gay: eu tinha somente 13 anos.

na verdade, o primeiro contato que eu tive com relações entre pessoas do mesmo sexo para além da pornografia vasta na internet, foi uma série na televisão paga. Nesse série, um grupo de rapazes e moças conviviam em um bairro gay. Tudo muito óbvio, tudo muito perfeito. Perfeito demais para qualquer garoto como eu naquela época idealizar aquele mundo totalmente contrário à prisão que eu vivia diariamente.

foi ali vendo na televisão aquele mundo que eu quis poder viver algo pelo menos um pouco semelhante.

e eu consegui.

lembro de eu chegando no bairro dos jardins em sp e de repente vários rapazes estavam na rua e alguém de dentro do carro me diz que provavelmente, pela proximidade da balada, também eram gays. imediatamente, a única coisa que pensei foi: todos??? todos eles? então não sou só eu? não são somente alguns.

e ali naquela descoberta quase que mágica eu pude me manifestar parte de mim até então reprimida. não era vontade de beijar ou algo do tipo. era vontade de poder ficar tranquilo em algum lugar. de poder sorrir, dar risada, fechar os olhos e relaxar. era apenas isso. mas era muito para mim.

essa sensação de libertação total fez daquela noite e possibilidade de ter momentos felizes na vida. tanto que na semana seguinte, no colégio eu não pensava em outra coisa. aliás, ali eu não tive mais dúvidas de que nada estava confuso na minha cabeça, pelo contrário, era a certeza de quem eu realmente era.

por conta da especulação imobiliária essa balada não existe mais. hoje existe um banco no lugar. já o bar próximo a ela em que eu fiquei bêbado somente por tomar uma cerveja e um pouco de capirinha, hoje é um buffet de festas infantis. mas o estacionamento continua existindo. a lixeira da rua em que eu me apoiei durante parte daquele dia também continua ali. fico feliz quando passo por ali. paro um pouco e fico lembrando dessas memórias boas. memórias de momentos alegres da minha vida.


Saturday, November 7, 2015

até quando?

até quando esse sofrimento? percebo que existem dores enormes guardadas dentro de mim. e o único jeito de seguir em frente é escondê-las de modo que eu não as encontre. há quem diga o inverso. que temos que liberar tudo de ruim que há dentro de nós. é o que tenho buscado fazer aqui. mas percebi pela primeira vez que há certas dores que ainda não sei lidar. quem sabe um dia eu consiga.

é um saco viver assim. 

Wednesday, November 4, 2015

Diário

Quando eu tinha 12 anos eu criei um diário. Naquela época, eu era bastante criativo e gostava muito de escrever. Passava várias tardes escrevendo roteiros de filmes, contos de histórias e inventando personagens. Também gostava de escrever poemas.

Com o passar do tempo, esse diário serviu para eu desabafar. A maioria dos textos estavam relacionadas com a opressão em casa e a minha "descoberta" sexual.

Eu escondia esse diário atrás de uma escrivaninha no meu quarto que era pesada e por isso dificilmente seria arrastada por alguém. Eu escondia pois sabia que nesse diário estava o segredo do meu armário.

Meses depois, com os problemas decorrentes da não aceitação ou questionamento sobre a minha orientação pela minha família, alguém pegou esse diário de mim. Até hoje não sei quem foi e provavelmente nunca saberei. Dói falar sobre isso. Dói saber que alguém destruiu as melhores recordações da minha infância. Dói não poder relembrar como eu fui uma criança maravilhosa. E dói saber que eu não pude fazer nada. É como se parte do meu passado tivesses sido tirado a força de mim. E foi.