durante quase dois anos da minha vida, tive que me submeter a sessões de cura gay oferecidas por um psiquiatra evangélico. confesso que quando me impuseram eu não resisti. até pensei "tenho apenas 13 anos talvez eu esteja de fato em dúvida"....
no início eu me questionava de maneira não muito clara o que eu estava fazendo ali. não via o menor sentido. eu me via obrigado e encontrar quais eram os sintomas daquela doença - social - que diziam que eu tinha.
e foi ali que eu percebi que eu só teria uma saída. entrar naquele jogo. era o jogo que todos ao meu redor queriam: a minha aceitação como um doente e que queria ser curado.
a partir daí eu iniciei o meu "tratamento". confesso que era muita confusão na minha cabeça. por um lado, eu pensava que seria tão mais fácil se de fato eu pudesse ser curado. por outro lado, eu tinha consciência de que aquilo era uma grande farsa. lembro até hoje da imagem da minha mão contando na parede os anos que faltavam para eu completar 18 anos. esses seriam o anos de armário.
e o engraçado é que foi exatamente assim. aos 18 o balde de água fria caiu sobre todos ao meu redor e caiu a máscara do farsante evangélico.
os anos de armário foram um alívio para mim. durante alguns anos pude não ser visto mais como um doente em casa. depois tudo voltou como antes. mas dessa vez eu resisti. e continuo resistindo. apesar de me verem e me tratarem como um doente - isso dói muito - eu luto para ter a certeza de que não tenho nenhuma doença. na verdade essa sociedade capitalista em que vivemos é que é doente.
por fim, não é uma opção. se eu pudesse optar eu realmente gostaria de correr risco de vida? só se eu for suicida ou gostar de sofrer. e não é o caso.